E de repente estamos conversando seriamente sobre política com você

*Vinícius Peron


E de repente estamos conversando seriamente sobre economia, história e política com quem nunca leu um livro.

Para os comuns, uma coisa fascinante vem ocorrendo no país desde 2014 é o interesse e a coragem do povo, do chão de fábrica, do peão mesmo, pela economia, pela história e pela política, finalmente o carnaval, o futebol e a novela tiveram suas estruturas abaladas nas rodas de conversas dessas pessoas.

Portanto, há aproximadamente sete anos, seja no seio familiar, no local de trabalho e até mesmo nos momentos de lazer- para quem os tem- tornou- se praticamente um hábito do dia a dia discutir, debater e trocar ideias sobre esses três temas que tanto impactam em nossas vidas, aliás, determinam nossas vidas e por conta disso em algumas ocasiões o clima até esquenta e por vezes relações familiares e amizades são interrompidas.

Mas, nem sempre foi assim. Em outro momento histórico recente do Brasil- (1964-2002)- em que tudo fora proibido e combatido na base da pirâmide social, em que tudo somente se ouvia e às vezes quando havia oportunidade tudo se cochichava não havia liberdade para que os assalariados falassem abertamente sobre essas pautas, para a classe operária era trabalho, pão e paulada.

Então, há mais ou menos dezenove anos uma escolha político/eleitoral praticada pela maioria dos votantes foi essencial para a formação de um clima e de um ambiente seguro de liberdade democrática que nos contemplou e nos proporcionou como nunca antes na história deste país a liberdade de pessoas comuns debaterem com quem quer que seja as pautas que outrora foram proibidas.

Dito isso, a questão é que numa República Democrática Representativa como a nossa (1889) cujo sistema de produção é o recentíssimo capitalismo (1760) é fundamental que a base da pirâmide social formada pela grande massa de assalariados seja interessada em pautas tão importantes, afinal, ao contrário daquilo que nos fazem acreditar não somos minoria, somos a maioria.

Porém, tais assuntos da área do conhecimento de humanas, seja a economia, a história e/ou a política, carregam consigo uma carga de complexidade que ultrapassa tudo aquilo que podemos perceber com os nossos conhecimentos e experiências da vida comum, quer seja, debater, discutir e trocar ideias sobre esses campos do conhecimento nos exige também doses básicas de saberes científicos, sobretudo, vindos de leituras e também de contatos e convívio com pessoas/profissionais que praticam a ciência e com isso produzem conhecimentos, “navegar não é preciso ler e estudar é preciso”.

Desse modo, o certo é que não transformaremos a realidade do país para melhor como muitos assim o desejam desinteressados de pautas e de assuntos que geralmente são considerados chatos e enfadonhos para a maioria de nós, menos ainda encontraremos o caminho do sucesso enquanto pátria, nação e país tratando essas pautas de maneira descompromissada e amadora com achismos e informações desconectadas abandonadas de análises coerentes e do senso crítico, precisamos das ciências para compreendermos as complexidades da nossa realidade.

Percebemos que as pessoas querem e se interessam em discutir os desafios e os sofrimentos que todos nós enfrentamos, de modo geral, estamos cansados de sempre carregar o fardo, mas, tão importante quanto demonstrar interesse por assuntos tão pertinentes é elevar o nível das discussões, pois, uma vez que a economia, a história e a política são mal analisadas, mal problematizadas, mal interpretadas e mal discutidas, podemos piorar nossas realidades ao invés de melhorá-la.

Na pratica, por exemplo, vejamos o lamentável fato da escravidão que manchou toda a história do país e impactou em todas as áreas, no Direito, na Economia, na História, na Política e na Sociologia, e quando mal analisada, mal interpretada e mal discutida pode, inclusive, dar margem para que hoje desconsideremos a gravidade daquela tragédia e ainda entendamos que os réus sejam inocentes e as vítimas se tornem culpadas.

Assim, entendemos que o primeiro e importante passo para o tão desejado e esperado Brasil do futuro também começou quando os debaixo perceberam que devem participar e provocar as discussões, os debates e as trocas de ideias sobre assuntos essenciais e determinantes das vidas de todos nós, contudo, agora é chegado o momento de outro passo importante, sombrear os achismos e o senso comum sobre essas discussões para quem sabe daqui um pouco estarmos conversando sobre economia, história e política com quem já leu um bom livro e daí conseguirmos avançar de maneira menos amadora e menos penosa.

*Bacharel em Administração de Empresas. Licenciado em História UFMS/CPTL.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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